Deboche presidencial

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 22 de outubro de 2015.

As mulheres – ao menos as que eu conheço – costumam dizer que só é possível manter um marido fiel no casamento se o sujeito tiver algum medo de perder a esposa. Ou seja, quem perdoa todo e qualquer deslize tem grandes chances de acumular uma verdadeira galhada na cabeça.

No casamento da sociedade com os políticos, esse que dura no mínimo quatro anos, os brasileiros são o caso clássico da “mulher de malandro”. Só assim para explicar o comportamento irracional de eleger e reeleger gente mentirosa e traidora de nossa confiança. Para as mulheres que sofrem nas mãos de parceiros canalhas e têm dificuldades de terminar o relacionamento, há instituições como o Mada – Mulheres que Amam Demais Anônimas –, onde o compartilhar coletivo das experiências ruins abre espaço para a cura individual. Pena que não exista o AGA (Adoradores do Governo Anônimos) e nem o Cerca (Cidadãos Enganados que Reelegem Corruptos Anônimos) para tratar nosso povo.

Uma das mentiras mais famosas e lendárias da política brasileira recente foi dita por Paulo Maluf, quando, em meio a investigações sobre suas contas bancárias no exterior, disse a pérola “a assinatura é minha, mas não fui eu quem assinou”. A presidente Dilma Rousseff, reeleita mesmo depois de contar a maior sequência de mentiras já registradas numa campanha eleitoral, segue firme em sua sanha falsária, e finalmente conseguiu superar o feito de Maluf ao dizer que “o meu governo não está envolvido em nenhum escândalo de corrupção”.

Se não estivéssemos falando do governo que proporcionou ao Brasil o recorde de maior escândalo de corrupção entre todas as democracias mundiais, de todos os tempos, a situação poderia até ser cômica. Não é o caso. As quantias roubadas durante os governos do PT seriam suficientes para alavancar a economia brasileira; é dinheiro que saiu de cidadãos e empresas para o ralo do governo, e de lá foi redistribuído para os ratos que vivem de parasitar o Estado. Dinheiro que seria gasto em máquinas, produção, diversão, comida, imóveis, automóveis, roupas, propaganda, cultura, educação, e que em vez disso 22102015-ILUSTRA-Quintelaestá guardado em contas secretas no exterior, das quais apenas uma pequena minoria foi descoberta pela Polícia Federal em suas operações. E, como boa mulher de malandro que é o povo brasileiro, os ratos continuam saqueando nossas dispensas com a bênção do voto popular.

Não bastasse a natureza criminosa da corrupção e suas consequências funestas para a vida de cada brasileiro honesto, a atitude da presidente é também um deboche, um verdadeiro bullying estatal. Se estivéssemos num filme de adolescentes americanos, seria o equivalente a termos a cueca puxada até a cabeça e depois sermos trancados no armário. Deixamos que o governo se tornasse um valentão covarde, e ele nos tira quase metade da merenda. E ainda por cima senta-se na cadeira do diretor.

O que fazer? A nova geração de adultos, aqueles que agora entraram na terceira década de vida, é formada por uma maioria de jovens intelectualmente paupérrimos, “educados” por um sistema que coloca seus estudantes entre os piores do mundo. A escola brasileira contemporânea ocupa-se mais em perverter menores sexualmente e ideologicamente do que em ensinar Língua Portuguesa, Matemática e Ciências. São eles que ocuparão as vagas de trabalho (as poucas que ainda sobrarem) e as filas do assistencialismo estatal. São eles que votarão, são eles que formarão a nova massa não pensante. Precisamos urgentemente de uma revolução intelectual. Que comece por mim e por você.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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