Uma andorinha só

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 8 de outubro de 2015.

Há um ditado popular que diz: “uma andorinha só não faz verão”. É o ditado popular que eu mais odeio. Uma andorinha sozinha pode não fazer verão, mas um homem sozinho faz muita coisa e influencia muita gente, e esta mensagem é o oposto da ideia por trás do tal ditado.

O mundo dos séculandorinhaos 20 e 21 é o mundo das massas. Ortega y Gasset descreveu essa realidade com maestria em sua magnífica obra A Rebelião das Massas. Vivemos ameaçados pela ousadia cada vez maior de bandos cada vez menos capazes, que acabam conduzindo o curso da história da mesma forma que uma mula conduz uma carroça. São as massas que votam e decidem quem as governará – ou pelo menos é o que elas acham. Mas é o aparato do Estado, tão grande e com tentáculos espalhados por toda a trama do tecido social, que as manipula como quer, conduzindo sua “mula” com o chicote dos impostos, a cenoura do assistencialismo e as esporas da força armada.

É por isso que eu desprezo o ditado da andorinha. Se há algo que o Brasil não precisa é de pessoas que queiram andar, agir e pensar em bandos. A mentalidade coletivista já ultrapassou qualquer limite tolerável em nosso país, e o individualismo tem definhado cada vez mais sob os governos de esquerda que ocupam o Planalto há mais de 20 anos. Aliás, a própria palavra “individualismo” soa quase como um palavrão aos ouvidos dos brasileiros; é interpretada como um sinônimo de egoísmo, de vileza, de falta de caráter. Uma pena, pois somente através do individualismo é que evoluiu a civilização humana. A história das conquistas e avanços da humanidade é escrita por indivíduos notáveis, que através da mentalidade e ação individualista revolucionaram seus campos de atuação, suas comunidades, suas pátrias e suas gerações. Seus feitos ressoam na história e inspiram outros a agir da mesma maneira.

É importante notar que o individualismo, de forma alguma, significa o desprezo pelo coletivo, pela sociedade ou pelos menos favorecidos. Ser individualista significa buscar as melhores situações para si mesmo, partindo sempre do pressuposto de que todas as interações entre indivíduos devem ser voluntárias e consensuais. Justamente o oposto do coletivismo, que tenta atribuir às massas uma entidade mágica e folclórica, o pensamento coletivo. Como pode o coletivo pensar se os cérebros são individuais? Ora, não pode; quem pensa por ele é o Estado, que por sua vez é comandado por alguns poucos indivíduos com grande poder, os quais impõem interações não voluntárias e não consensuais a todos os “cidadãos livres”. E o Estado brasileiro gosta de pensar nos mínimos detalhes de nossas vidas: quer regular como criamos nossos filhos, o que podemos comer, o que podemos beber, o que devemos falar, como devemos pensar, com quem devemos nos relacionar, como devemos nos divertir e de que forma podemos gastar nosso dinheiro. É um Estado intrometido, castrador, pernicioso, voraz e impiedoso. Ele quer regular tudo, confiscar o máximo possível e devolver migalhas. É nosso pior pesadelo, um peso morto nos ombros de uma sociedade exausta.

Como se quebra essa hegemonia do Estado? Como se diminui esse gigante que ocupa cada vez mais espaço em nossas vidas, que nos tira a liberdade e nos faz democraticamente cativos? Só existe uma maneira: resgatando-se cada vez mais indivíduos de dentro das massas. A tirania se alimenta do coletivismo; devemos matá-la por inanição.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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