Um milhão de mentiras

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 30 de setembro de 2015.

A mentira é uma prática bem disseminada no Brasil, especialmente no tocante à política. Quem não se lembra dos debates entre candidatos à Presidência, no ano passado, quando Dilma Rousseff disse reiteradamente que em seu segundo mandato não aumentaria juros, não criaria impostos e não mexeria em direitos trabalhistas? A presidente mentiu sem o mínimo pudor.

Mas há mentiras mais sofisticadas, também conhecidas como meias-verdades, que são usadas para suavizar uma realidade dura demais para ser exposta. G30092015-ILUSTRA-QUintelaeralmente essas meias-verdades são fundamentadas em dados matemáticos, pois a matemática é uma ciência exata e nunca mente. Junte-se a isso a arte de manipular informações e ocultar dados, e você conseguirá passar qualquer tipo de informação ruim de uma forma mais agradável e menos agressiva.

Tomo como exemplo uma notícia que apareceu recentemente na maioria dos portais de notícias do Brasil: a perda de quase 1 milhão de vagas formais de trabalho nos últimos 12 meses. Um milhão de vagas de trabalho é uma quantidade imensa, um número maior do que a população de diversos países. No entanto, quanto tomada sem nenhuma referência, pode parecer um número não tão impactante num país com mais de 200 milhões de habitantes, como é o Brasil. Num raciocínio rápido e superficial, a pessoa que lê tal número pode facilmente pensar algo como “somos um país tão grande, é ruim que 1 milhão de pessoas tenham perdido o emprego, mas ainda tem muita gente trabalhando”. É claro que, se ela fizer parte desse milhão, a coisa vai lhe parecer bem mais real, mas para quem ainda tem trabalho a situação se apresenta menos desesperadora.

Mas e se os números fossem apresentados como um todo? E se fosse explicado que o Brasil, apesar de seus mais de 200 milhões de habitantes, possui uma população economicamente ativa de apenas 80 milhões de pessoas? E se fosse mostrado que, desses 80 milhões, aproximadamente 25 milhões recebem Bolsa Família e, portanto, estão fora do mercado de trabalho? Mais ainda: e se fosse dito que, dos 55 milhões que sobraram, apenas 25 milhões trabalham formalmente, com carteira assinada? Bem, se tudo isso fosse exposto com clareza, ficaria muito fácil de se entender que a perda de 1 milhão de vagas formais de trabalho é um acontecimento catastrófico. Significa que, de cada 25 pessoas empregadas, uma perdeu seu sustento.

Qualquer um consegue se lembrar de 25 pessoas conhecidas. É um grupo pequeno, do tipo que se recebe facilmente para uma festinha de aniversário ou churrasco; é um grupo que cabe até numa mesa grande de pizzaria. Pois é: no Brasil de 2015, o Brasil de Dilma e do PT, uma dessas pessoas terá perdido o emprego, e dificilmente encontrará outro, porque as vagas se fecharam, extintas pela crise econômica que piora a cada dia.

Assim como acontece com os índices de violência – só percebemos que a situação está realmente ruim quando pessoas próximas de nós (ou nós mesmos) são atingidas e se tornam vítimas –, o problema do desemprego só nos impressiona quando nossos amigos, parentes e colegas começam a nos enviar seus currículos e perguntar se conhecemos algum lugar onde “estão contratando”. Em minha recente viagem ao Brasil percebi que esse ponto já foi ultrapassado: diversas pessoas com quem conversei falaram sobre amigos e parentes desempregados, pedindo ajuda para recolocá-los profissionalmente; alguns estão em situação crítica, desesperados, tendo de se mudar com a família para os fundos da casa dos pais porque já consumiram suas reservas e continuam sem trabalho.

A única pessoa que continua vivendo numa realidade alternativa é a própria presidente Dilma. Em plena Assembleia Geral da ONU ela conseguiu dizer que a economia brasileira está mais forte, mais sólida e mais resistente. Não é de se estranhar; afinal, sua patota continua empregada no gigantesco Estado brasileiro – pelo menos por enquanto.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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