Opinólatras anônimos

Dizem que opinião é como uma certa parte do corpo, aquela com que sentamos: cada um tem a sua. Alguém que olhe para a definição simples da palavra, encontrada nos dicionários, poderá concordar com este dito popular. No entanto, se considerarmos uma certa classificação para as opiniões – fundamentadas ou ilógicas, por exemplo –, ficará claro que essa entidade pseudo-intelectual que os opinólatras têm a respeito de tudo não passa de um fenômeno moderno, contemporâneo às redes sociais, de difusão desenfreada da idiotice.

No mundo de apenas vinte anos atrás, difundir as opiniões próprias sobre qualquer assunto era privilégio de pessoas com acesso à mídia impressa, radiofônica ou televisiva. No mundo de hoje, as redes sociais dão espaço a qualquer um que deseje expor seus pensamentos, e geralmente o alcance desta exposição é diretamente proporcional à presença midiática do sujeito; ou, traduzindo de maneira mais simples, idiotas famosos espalham muito mais rastros de opiniões do que idiotas pouco conhecidos. E uma das combinações com maior probabilidade de produzir resultados ruins é a de artistas opinando sobre qualquer coisa que não seja a arte de atuar.

O opinólatra da vez é Dado Dolabella, que comentou a recente morte de Betty Lago com uma pérola da irracionalidade, associando o câncer que matou a atriz ao “consumo surreal de sofrimento e violência animal.” Ora, o ator não possui nenhuma evidência que sustente sua opinião; aliás, não existe estudo científico conclusivo a respeito de possíveis efeitos cancerígenos do consumo de proteína animal por homens. Se há alguma lógica que se possa chamar de comum ou de massa sobre este assunto, é a de que comer carne faz bem; afinal, nossa espécie vem fazendo isso há milênios. Mas o senhor Dolabella e tantos outros menos famosos querem apenas opinar, sem a contrapartida de apresentar fundamentos lógicos do que dizem; ao agirem assim, acabam transformando uma atividade que deveria ser nobre, da parte alta o intelecto, num ato tão espontâneo e desprovido de sentido como um arroto. A comparação pode ser um pouco repugnante, mas não deixa de ser pertinente: o opinólatra fala e escreve sem pensar, só pela satisfação de falar e escrever, assim como o garoto tenta cantar “Atirei o pau no gato” com arrotos, só pela satisfação de ouvir sua própria sinfonia de sons guturais.

Mas o que fazer com os opinólatras? Não existem clínicas de reabilitação para este vício, e os métodos comprovadamente eficazes são de difícil administração, pois envolvem doses fortes de boa literatura, boa filosofia, abnegação, equilíbrio e honestidade intelectual. O viciado, como no caso de qualquer outra droga, precisa admitir o seu problema, para somente então ter alguma esperança de cura. As recaídas são muitas, ainda mais com as tentações que aparecem pela frente: uma olhada no celular e lá estão os ícones de Facebook, Twitter, Instagram, Tumblr e outros, prontos para desencadear mais uma opinião sem sentido ao toque dos polegares. E assim, num momento de fraqueza, bastam algumas palavras, meia dúzia de sugestões do corretor ortográfico, uma conferida rápida e uma dedada no “Enviar” para que nosso amigo caia novamente na armadilha de seu vício. Depois do êxtase de alguns likes vem a depressão de ter feito papel de bobo, algo que tende a desaparecer com o tempo, caso o opinólatra tenha seu quadro agravado. Nestes casos, o pobre coitado acaba abandonando a realidade e megulhando num mundo fantasioso, do qual dificilmente consegue escapar.

A opinolatria pode ser uma palavra inventada por este que vos escreve, e os opinólatras anônimos não passarem de um devaneio de sua cabeça, mas o problema das opiniões idiotas cresce a cada dia. Se eu fosse um entusiasta da intervenção estatal, escreveria aos deputados solicitando uma política pública de combate às drogas de opinião. Como sou o contrário disso, lanço minha própria campanha particular: se não pensar, não poste; se for postar, pense.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

2 comentários sobre “Opinólatras anônimos

  1. Esses opinolatras alcançam o nivel maximo de imbecilidade quando opinam sobre Israel, na opiniao desses seres Israel e o causador de todo o mal no Oriente Medio nao existe opiniao mais irreal do que esta.

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