O Itamaraty não é mais aqui

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 3 de setembro de 2015.

A diplomacia brasileira já foi motivo de orgulho e desejo de carreira de muitos brasileiros. Alguns grandes nomes passaram pelo Itamaraty, profissionais que hoje não teriam lugar na era diplomática petista, uma que tem colocado a ideologia como único norte para esta atividade essencial à soberania da nação.

Nossa tradição diplomática começou com Alexandre Gusmão, que destacou-se nas negociações do Tratado de Madri, aquele que substituiu o Tratado de Tordesilhas, estabelecendo fronteiras próximas às do Brasil de hoje e consagrando o uti possidetis, ita possideatis, princípio do direito romano que dá a posse de direito a quem já a possui de fato. Destaque-se que isso foi realizado numa época em que nossa diplomacia nem existia de forma organizada.

No século 19, o Brasil veria o nascimento de José Maria da Silva Paranhos Júnior, cujo título de nobreza foi imortalizado no centenário de seu nascimento, batizando o instituto recém-criado onde se daria a formação dos futuros membros do corpo diplomático da nação. O Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira, foi responsável pelo Tratado de Petrópolis, assinado em 1903 com a Bolívia, e que resultou na anexação do Acre pelo Brasil.

Já no século 20 tivemos outro grande diplomata, Oswaldo Aranha, que defendeu a aliança com os Estados Unidos quando o ministro da Guerra do governo Vargas era pela aproximação com a Alemanha. Numa ação inimaginável para as diretrizes atuais do Ministério das Relações Exteriores, Aranha presidiu a II Assembleia Geral da ONU e defendeu a criação do Estado de Israel por meio da partição do território palestino, recebendo na época o agradecimento público de vários judeus proeminentes.

Com o século atual veio a decadência, montada sobre o ranço ideológico impresso ao Itamaraty. Em 2005 houve a decisão de remover o caráter eliminatório da fluência na língua inglesa dos critérios de admissão ao Instituto Rio Branco. Na mesma época já estava em vigor uma mudança de foco nas relações exteriores, com uma ênfase cada vez maior na África, inclusive em algumas ditaduras cruéis, e um distanciamento de nosso maior parceiro comercial na época, os Estados Unidos. O então presidente Lula fez oito viagens para países africanos para consolidar esse novo direcionamento, cujo resultado mais notável foi turbinar os lucros de grandes empreiteiras brasileiras, várias delas implicadas atualmente pelas investigações da Operação Lava Jato.

O fim da primeira década do século veria o governo Lula buscando a aproximação com o Irã de Mahmoud Ahmadinejad, e a diplomacia brasileira opondo-se às sanções contra o programa nuclear iraniano. A vitória de Dilma nas eleições de 2010 só aprofundou o buraco diplomático em que nos enterramos. E essa caminhada histórica nos traz a 2015, ano em que o Itamaraty publicou nota oficial repudiando a execução de um traficante de drogas brasileiro pelo governo indonésio, mas calou-se diante de ameaças de invasão territorial feitas pelo presidente da Bolívia, Evo Morales. Este silêncio não é apenas covarde; é um silêncio de quem é cúmplice na destruição das democracias da América do Sul, na defesa de criminosos e traficantes e no posicionamento ideológico ao lado de ditadores e governantes autoritários.

Mas, não bastasse a miséria profissional, nossa estrutura diplomática enfrenta também a miséria física. No início deste ano, diversos diplomatas brasileiros em países como Japão, Portugal e Estados Unidos enviaram telegramas ao Itamaraty informando que estavam prestes a sofrer cortes de energia por falta de pagamento, e que não tinham dinheiro para pagar contas de internet e comprar materiais de uso diário. Num dos piores casos, o da embaixada no Benim, o próprio embaixador teve de tomar banho “de caneca” porque não havia nem US$ 100 em caixa para pagar o conserto do aquecimento de água.

Da negociação de novos territórios para a covardia diante de uma ameaça de invasão. Da posição de destaque no pós-guerra para a defesa de traficantes. Da imagem justificada de excelência para a penúria vergonhosa. O legado diplomático brasileiro é apenas mais um que o governo petista conseguiu destruir. Destruição, aliás, é o principal legado desse governo para o Brasil; talvez seja o único.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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