Tempos sombrios

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 27 de agosto de 2015.

O jogo democrático caracteriza-se, obrigatoriamente, pelo confronto político entre situação e oposição, exercido através de meios legais e não violentos. A ausência de oposição é característica de regimes autoritários, como os de Cuba e Coreia do Norte, e nunca é positiva ou desejável para uma nação (vale lembrar que na época dos governos militares havia oposição). Infelizmente, esta noção fundamental à manutenção da liberdade não parece fazer parte da agenda política deste governo.

Não é de hoje que a versão petista do antigo ministério da propaganda de Hitler, capitaneado por Joseph Goebbels, vem tachando os oponentes do governo de antidemocráticos e golpistas. As acusações, no entanto, são falsas em todos os aspectos, contradizendo tanto a lógica como a coerência histórica. Tomemos como exemplo a questão do impeachment: a se considerar a Constituição Federal e as evidências que vêm sendo reveladas sobre o governo atual, não existe base legal para se classificar um pedido de impeachment como algo antidemocrático ou como “quebrar as regras do jogo”. A se considerar o comportamento histórico dos próprios políticos governistas que defenderam, 23 anos atrás, o impeachment de Fernando Collor, também não há justificativa para tais acusações de golpismo, ainda mais diante das manifestações populares que lotaram as ruas do país em três oportunidades neste ano.

Sobre as manifestações, aliás, as tentativas recentes de desqualificá-las têm se mostrado histéricas e fantasiosas, e incluem desde sugestões estapafúrdias de que a CIA esteja financiando alguns dos movimentos até as coberturas irracionais dos protestos por grande parte da mídia, com menção desonrosa especial ao instituto Datafolha, que tem divulgado contagens e pesquisas mentirosas sobre os manifestantes, facilmente contestáveis por documentos anteriores do próprio instituto.

Esse comportamento, por mais afetado e anormal que tenha sido, ainda não tinha ultrapassado abertamente a linha da ilegalidade e do arrepio à lei. Sim, pode-se dizer que houve mentiras que deixam qualquer pescador corado de vergonha, e que houve falsidade, ocultação, antiprofissionalismo, falta de civismo, falta de caráter e falta de vergonha na cara por parte da presidente e de seus ministros, assessores, conselheiros, partidários, militantes e tantos outrosjaqwag que se penduram na estrutura estatal gigantesca que o PT montou em seus quase 13 anos no poder. Mas isso já não é mais verdade.

Jaques Wagner, ministro da Defesa, diretor superior das Forças Armadas, cuja função é articular as ações que envolvam estas instituições, publicou em seu perfil público do Facebook no dia 24 deste mês uma montagem onde se lê “De que lado você está?”, tendo embaixo duas sequências de fotos: a de cima, denominada “Time Democracia”, mostra artistas defensores do governo fazendo pose com a presidente Dilma; a de baixo, denominada “Time contra o Brasil”, mostra políticos da oposição e o artista Lobão, que tem sido crítico ferrenho do governo. No texto que acompanha a montagem, o ministro escreve que “Hoje, na política brasileira, há dois times em campo. De um lado, em defesa da democracia, está a equipe formada por grandes artistas e expoentes da cultura nacional (…) Eles reconhecem que o país atravessa um momento difícil, mas pregam o respeito à Constituição, rechaçam qualquer possibilidade de interrupção do mandato da presidenta (sic)Dilma Rousseff (…) Do outro, estão os personagens de sempre, o time do pessimismo, do ‘quanto pior, melhor’, dos que colocam suas ambições eleitorais acima da estabilidade institucional do país e dos que saíram das urnas derrotados pela quarta vez seguida (…) E você, de que lado vai jogar nesta partida, no time que está sempre contra o Brasil ou no time da democracia?”

Qual é a mensagem que um ministro da Defesa passa ao escrever algo assim? Nenhuma que seja aceitável. Se ele queria apenas fazer uma analogia futebolística, passou longe do comportamento que se espera de quem representa as Forças Armadas. Se queria passar um recado de que Exército, Marinha e Aeronáutica estão prontas para jogar para o time “certo”, muito pior, pois isso significaria o estabelecimento de uma nova ditadura no país. Aliás, o ministro conseguiu criar sua própria versão do tão criticado bordão dos governos militares, “Brasil, ame-o ou deixe-o”, apenas trocando o imperativo por uma pergunta que pressupõe resposta certa. Não me surpreenderei se ele se apossar de uma certa frase de Jesus Cristo para se justificar no futuro – “Quem comigo não ajunta, espalha”.

Aqueles que acreditam ter o monopólio da virtude são capazes de coisas inimagináveis para manter o poder. São tempos sombrios quando gente como Jaques Wagner comanda as forças armadas de um país.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

 

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