Está em falta

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Colunistas, edição de 10 de maio de 2015.

Entrei em uma loja de vinhos, pois queria comprar um tinto espanhol, mas só encontrei vinhos brasileiros. Perguntei para o atendente se eles não vendiam mais importados, e ele me disse que o governo tinha baixado uma nova lei para proteger os produtores nacionais, e que agora havia uma cota máxima de produtos importados para vender, a qual já tinha se esgotado. Dava para ver que ele estava um tanto nervoso – eu não devia ser o primeiro cliente insatisfeito, que saía da loja sem comprar nada.

Desisti do vinho e resolvi jantar numa lanchonete. Pedi um hambúrguer com batata frita, e o garçom me respondeu:

“Está em falta, senhor”.

“Mas como? Isso aqui é uma lanchonete!”

“Sim, mas o governo baixou uma lei protegendo os produtos de origem indígena e nacional, e agora temos cota para a batata. Se o senhor quiser, tem mandioca frita. Ah, e o hambúrguer também tem cota, pois é estadunidense. Se o senhor quiser, temos bauru e churrasquinho.”

“Deixa pra lá. Perdi a fome. Me dá só uma Coca-Cola.”

“Tem guaraná, senhor… Acabou a cota da Coca também.”

not_availableJá sem acreditar no que estava acontecendo, saí da lanchonete e fui ao cinema, para tentar esquecer aqueles absurdos. Chegando lá, todas as salas estavam exibindo o novo filme do Fábio Porchat, algumas em português e outras dubladas em tupi-guarani. Pensei em perguntar o porquê daquilo, mas seria perda de tempo. Resolvi voltar para casa. Ao chegar aonde tinha estacionado o carro, quase caí de costas: ele havia se transformado num Gurgel BR-800. Saí correndo, assustado, até que escorreguei, bati a cabeça e… acordei suando.

Esse pesadelo que tive é o sonho da esquerda brasileira. Ora é a Ancine se intrometendo nas exibições de cinema e televisão, ora é a Camex alterando o Imposto de Importação para “proteger” algum setor industrial, ora é o Judiciário decidindo em favor de indígenas e quilombolas e rasgando os títulos de propriedade privada, ora são artistas incompetentes que querem ser privilegiados por regras estatais para conseguir público. Esse foi o caso de Fábio Porchat, recentemente indignado com a decisão do dono de um cinema que, para agradar o público, resolveu exibir Velozes e Furiosos 7 em quase todas as suas salas, enquanto o filme de Porchat ficava de fora da grade.

A mentalidade desse artista é a mesma de governantes, legisladores, juízes e militantes de esquerda: a de que o Estado deve tratar seus cidadãos como crianças inaptas e incompetentes para tomarem decisões.

O Brasil nunca será um país produtivo e desenvolvido enquanto os brasileiros não forem adultos competentes e responsáveis. A dependência do Estado é uma doença que destrói a força e a capacidade de movimento de uma sociedade. Esperamos que o Estado nos dê saúde, educação, segurança, lazer, emprego, e que cuide dos pobres e oprimidos. Mas, ao terceirizarmos ao Estado o que nos faz humanos – ou seja, a autonomia, a iniciativa, a capacidade de lutar, a caridade, o altruísmo, a cooperação e tudo mais que vem da parte mais alta de nossa alma –, estamos nos suicidando, soterrados pelo coletivismo burro que elege governos populistas e salafrários.

Acordemos, antes que o próximo item em falta seja a liberdade.

 

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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