Nova República: falecida em 12 de abril de 2015

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Colunistas, edição de 1 de abril de 2015.

Nossa realidade é cheia de dualidades, coisas ou forças que só existem se acompanhadas de seu par. É o caso dos ímãs, por exemplo. Todo ímã tem dois polos, norte e sul; corte-se um ímã ao meio e surgirão dois outros, cada um com os mesmos dois polos. A Nova República, denominação dada ao período posterior ao governo militar, começou em 1985, com o governo Tancredo-Sarney. Estamos falando de um período de 30 anos, do qual o primeiro terço foi marcado por acontecimentos de extrema relevância política, como a Constituinte e a eleição e impeachment de Collor, seguidos pela dualidade que todos conhecemos bem: PT versus PSDB.

É muito importante compreendermos o quão arraigada esta dualidade está neste período, pois somente assim poderemos entender o movimento histórico que está prestes a acontecer: a morte da Nova República e sua iminente substituição por algo que ainda não sabemos o que é. O fim do governo atual de Dilma Rousseff, seja por impeachment, renúncia ou cassação, é ao mesmo tempo o fim de uma era. E, com base no comportamento que os caciques tucanos têm tido em relação ao clamor popular, parece que eles também enxergam esse mesmo destino.

O término antecipado do governo Dilma significa a extinção do PT. O partido não tem mais lastro para voltar a governar: faltam quadros, falta imagem, falta ética – sobrou apenas o desespero de manter o esquema de poder a qualquer custo. E será também a extinção do PSDB, que elegeu-se fazendo um falso contraponto ao PT, e só sobreviveu nos últimos 12 anos graças à ignorância coletiva de um povo que acredita (ou acreditava) piamente que os dois partidos são antagônicos em suas essências.

Mas quem, ou o quê, substituirá essa dualidade que está prestes a acabar? É muito improvável que alguém saiba essa resposta, e não há nada mais amedrontador que o desconhecido. A maioria dos caciques políticos observa atônita o movimento popular que tomou as ruas em março último, sem conseguir saber como lidar com toda essa insatisfação ou o que dizer a essas milhões de pessoas. O medo os calou e os imobilizou.

Conseguirá a sociedade brasileira fazer o melhor uso possível desse medo, e conduzir-se ereta ao novo período histórico que está prestes a se iniciar? Saberemos a partir do próximo dia 12.

 

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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