O jornalismo porco

No dia 20 de março de 2015 a Exame.com publicou uma matéria, assinada por Guilherme Dearo, sobre uma campanha publicitária desarmamentista feita na cidade de Nova Iorque. O artigo é o símbolo do jornalismo porco, do artigo feito de qualquer jeito, às pressas, sem cuidado, e pior, cheio de viés (intencional ou não).

Indignado com o ocorrido, e sendo leitor costumeiro de Exame, enviei o seguinte e-mail aos chefes de redação de Exame e Exame.com, com cópia para o presidente do grupo Abril:

Boa noite

Hoje me deparei com a seguinte reportagem no site de Exame:

http://exame.abril.com.br/marketing/noticias/comercial-cria-loja-de-armas-em-nova-york-e-choca-clientes

Quem assina é um tal de Guilherme Dearo, da Exame.com.

Deixei o seguinte comentário:

Reportagem porca essa. O autor não teve a decência de fazer uma pesquisa mínima de autores sérios, como Lott e Malcolm, que possuem trabalhos acadêmicos mostrando que a presença de armas em casa NÃO AUMENTA a incidência de mortes acidentais ou suicídios. Eu desafio o tal Guilherme Dearo a comparecer ao lançamento do meu novo livro com o Bene Barbosa, o Mentiram Para Mim Sobre o Desarmamento, que acontecerá no dia 8 de abril, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, levando consigo qualquer evidência que ele consiga achar sobre essas mentiras citadas na reportagem. Se ele conseguir fazer isso e provar que tudo o que escrevemos no livro está errado, ele pode começar a se chamar de jornalista.

Além disso, decidi mandar este e-mail para vocês porque achei um absurdo a falta de noção jornalística do repórter, que colocou informações falsas no texto (ex.: “Por lei todo americano pode comprar e portar armas.”), citou estatísticas que não existem (“as estatísticas provam o oposto: ter uma arma em casa aumenta as chances de suicídio, homicídio e tiro acidental”) e tratou o assunto com uma superficialidade irresponsável.

Como autor e pesquisador da área, me sinto mal em ver um jornalismo desse nível numa revista do calibre de Exame. Além de ser um desserviço à população, é uma exposição da revista ao ridículo.

Att,
Flavio Quintela 

Minutos depois recebi a seguinte resposta de Maurício Grego, editor de Exame.com:

Flavio

Obrigado pelos comentários.

Como especialista você certamente sabe que a Segunda Emenda da Constituição dos Estados Unidos assegura o direito de possuir e portar armas aos americanos, ainda que haja restrições que variam conforme o estado. Alterei o parágrafo que dizia que “todo americano pode comprar e portar armas” para que reflita isso de forma mais precisa.

Quanto às estatísticas, elas são citadas no vídeo. O repórter apenas as traduziu para facilitar o entendimento. Note que a reportagem não é sobre o mercado de armas. É sobre uma bem elaborada campanha publicitária.

Bom fim de semana,

Maurício Grego

Conferi imediatamente as mudanças que o Maurício disse ter feito, e elas realmente melhoraram um dos parágrafos, mas o conteúdo geral da matéria continuou muito ruim. Decidi então responder:

Maurício

Vi sua alteração, que realmente melhorou o texto. As diferenças impostas por leis estaduais e até mesmo municipais são muito grandes para serem ignoradas sob uma generalização daquelas. Obrigado.

Quanto às estatísticas serem parte do conteúdo do vídeo, entendo, mas continuo achando estranho que a campanha seja citada num artigo sem nenhuma observação crítica sobre a mesma. Por esse raciocínio que você me apresentou, qualquer campanha publicitária, por mais mentirosa que seja, é digna de aparecer na revista se for “criativa e inusitada”? Não é ofício e responsabilidade do jornalista oferecer às pessoas os subsídios para que elas se informem corretamente sobre um determinado assunto? Ora, ao dizer que

Logo de cara, a campanha mostra que 6 entre 10 americanos consideram que ter armas aumenta a segurança, mas as estatísticas provam o oposto: ter uma arma em casa aumenta as chances de suicídio, homicídio e tiro acidental.

o autor do artigo está, ainda que de forma tácita, endossando o conteúdo do vídeo e transmitindo a informação errada. O recorte da informação e o destaque dado a ela são de responsabilidade única do autor da matéria, e ao fazer isso ele abriu o tema, deixando de restringi-lo apenas à campanha em si, e passando a dar ênfase ao assunto “desarmamento”. No mínimo, para não ser completamente parcial, ele deveria ter escrito algo como “mas as estatísticas citadas no vídeo, que são contestadas por trabalhos acadêmicos da área, alegadamente mostram o oposto…”. Ainda seria desproporcional, mas pelo menos daria à matéria um pouco de honestidade em relação ao assunto.

Como leitor já de muitos anos de Exame, acho que a rapidez e a dinâmica da era atual do jornalismo, onde as publicações online podem ser feitas a qualquer momento, e a quantidade de textos publicados é muito maior do que na época onde a única opção era a impressão, não deveriam comprometer a qualidade e a honestidade dos artigos. A impressão que o leitor bem informado (ainda que este seja um tanto raro) tem é de um trabalho feito de qualquer jeito, digitado às pressas e sem nenhuma revisão de conteúdo. E, para piorar, com viés ideológico. Não estou acusando o jornalista de ser um defensor do desarmamento – estou dizendo que ele não parece ter conhecimento algum sobre o assunto além do pequeno vídeo que viu e postou. Quando se escreve um artigo sobre um tema que não se domina, o mínimo a se fazer é pesquisar os embasamentos a favor e contra, e passar isso ao leitor. Quem faz menos que isso, ou teve preguiça, ou está com segundas intenções.

Atenciosamente,
Flavio Quintela

Vou atualizar este artigo conforme receber (ou não) respostas. Mas, desde já, quero dizer a você, leitor deste blog, que precisamos mostrar nossa indignação quando um repórter faz um serviço ruim e desqualificado como esse. Se você reclama quando é mal atendido num restaurante ou numa loja qualquer, então pode reclamar também da imprensa. Eles são prestadores de serviço, e não estão livres da crítica de seus clientes. E esses somos nós.

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento“.

4 comentários sobre “O jornalismo porco

  1. Bem observado e posto, parabéns!
    Está mais que provado que a população armada(devidamente orientada e treinada), faz com que a sociedade seja mais segura.
    Porém, população armada é a primeira coisa que os ESQUERDOPATAS=comunistas querem suprimir, pois são covardes e mentirosos.
    Continue atento e divulgando as manipulações deles, obrigado!

  2. Parabéns, Flávio. Precisamos mostrar a estes delinquentes que sempre tem alguém mais inteligente do que eles e que têm a coragem de botar o dedo na ferida e apertar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s