Distopia é nosso sobrenome

utopia-distopiaA definição mais fácil de distopia é uma utopia negativa. É claro que, para entender tal definição, é necessário saber o que é uma utopia, que é nada mais do que a ideia de um mundo ideal e perfeito (e inexistente, por consequência). Há distopias famosas, como 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, obras em que os autores imaginaram um mundo onde a liberdade e a privacidade são nada mais do que lembranças de tempos remotos, e onde o coletivismo burro e o autoritarismo estão praticamente onipresentes em toda a sociedade.

Quem tem um mínimo de apreço pelas liberdades individuais termina de ler essas obras com um frio na barriga, um arrepio só de pensar que o mundo pode caminhar para um futuro assim. O arrepio é justificado, pois não só o mundo caminha para esse tipo de realidade distópica, como há um lugar em que ela já foi plenamente estabelecida: o Brasil. Acha um exagero dizer isso? Então continue comigo por mais alguns parágrafos; acompanhe meu raciocínio.

Quando penso numa sociedade ideal, utópica, vejo as pessoas podendo exercer suas liberdades sem medo. Vejo gente se expressando livremente, sem ninguém para censurá-las. Vejo os criminosos sendo presos, julgados e condenados. Vejo um governo que não interfere nas decisões e nas vidas das pessoas. Vejo cidadãos responsáveis por seus destinos. Vejo a proteção à privacidade e às escolhas individuais. Vejo o cultivo da verdade e da honestidade como um princípio dos mais elevados. Vejo a valorização do pensamento crítico e o uso da racionalidade. Vejo a busca pelo ideal limitada ao divino, e a certeza de que sozinhos não somos capazes de traçar padrões de conduta suficientemente bons para pautarem a humanidade.

Quando olho para o Brasil não vejo nada disso. Vejo as liberdades sendo removidas dia após dia. Vejo que não podemos mais nos expressar livremente, pois algum “policial” do politicamente correto virá com sua condenação pronta, endossada por uma mídia tacanha e mal intencionada. Vejo que a maioria dos criminosos está livre, os que são julgados não são presos, e os que são presos acabam soltos. Vejo um governo que muda as regras do jogo a cada momento, que brinca com a vida das pessoas, que rastreia cada centavo gasto por elas, que busca saber tudo sobre cada um de nós, ao mesmo tempo que esconde o máximo que pode sobre si. Vejo cidadãos desprovidos de responsabilidade, encostados em programas sociais, dependentes de esmolas oficiais, irresponsáveis e acostumados a jogar a culpa por seus atos falhos em qualquer pessoa que não eles mesmos. Vejo a privacidade se extinguindo, o olho do Estado em todos os lugares, a interferência das pessoas nas vidas das outras, a vigilância mútua incentivada pelo governo, a condenação das conquistas individuais em nome do coletivismo medíocre e o combate irracional a tudo o que não tem a grife “social” no nome, como se a sociedade não fosse composta de indivíduos. Vejo a valorização e a oficialização da mentira, despejada pelos mandatários da nação em programas de rádio e televisão, contadas sem nenhuma vergonha ou constrangimento, ditas num dia e desmentidas logo depois; e vejo essa cultura mentirosa arraigada na sociedade brasileira, no jeitinho, no tirar vantagem, no amigo que conhece um amigo. Vejo a perseguição ao pensamento crítico, o desprezo pela virtude, o ódio ao mérito, o culto aos prazeres mais animais e carnais, o desdém pela intelectualidade, a exaltação da ignorância e a coroação dos medíocres. Vejo a busca por tudo o que existe de mais baixo na alma humana, e a ridicularização do divino como conduta padrão de todos os que se dizem progressistas e a favor de um suposto e inexistente bem maior.

Fomos reduzidos a selvagens, cuja maior expressão de individualidade é lamber a própria bunda. Nosso intelecto foi subjugado por nossas perversões, e nos tornamos um povo sem princípios, sem respeito e sem memória. Parece realmente que decidimos reverter o processo evolutivo e caminhar de volta aos tempos do paleolítico, deixando para trás qualquer traço de civilização que um dia tivemos. Como dizem por aí, nas redes sociais, o Brasil não corre nenhum risco de dar certo. Infelizmente.

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor do livro “Mentiram (e muito) para mim”.

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