Brasil x Botswana

O senso comum esquerdista costuma colocar os países desenvolvidos e capitalistas como exploradores, uma boa parte do restante do mundo como explorados, e a maioria dos países da África como pobres-nações-mega-exploradas-e-sem-esperanças. É a velha mentira da economia de soma zero, onde afirma-se que para alguém ser rico outro alguém tem que ser pobre.

Já o senso comum conservador é o de que qualquer nação que abrace certos princípios de liberdade individual e econômica, e opte por uma forma democrática e estável de governo, estará no caminho para o desenvolvimento e para a superação da pobreza. Um caso emblemático deste tipo de abordagem ficou famoso duas décadas atrás, com os chamados “Tigres Asiáticos”, que conseguiram um salto de desenvolvimento e de criação de riquezas sem precedentes na história recente.

Mas seria possível que algo assim acontecesse num lugar como a África, um continente que de acordo com todos os socialistas, comunistas e esquerdistas que conheço, foi destruído pela exploração conduzida por homens brancos malvadões? E mais, se tal lugar existisse, seria possível compará-lo ao Brasil, país que caiu nas mãos da esquerda há mais de duas décadas e que, portanto, não pode alegar estar sendo explorado por governantes capitalistas diabólicos?

A resposta é sim, e eu sugiro compararmos Brasil e Botswana.

O Brasil tem mais de 8 milhões e meio de quilômetros quadrados, e uma linha costeira das maiores do mundo. É também abundante em água doce, tem poucas zonas desérticas, e uma das maiores áreas cultiváveis do planeta. Além disso, desde o meio do século passado conta com um parque industrial e com uma infra-estrutura de energia e transporte que, se não é a ideal, está longe de ser desprezível. Independente desde 1822, o país já teve sete constituições e algumas rupturas da ordem democrática.

Botswana tem apenas 580 mil quilômetros quadrados, quase do tamanho do estado de Minas Gerais, e não possui acesso a nenhum oceano; pelo contrário, grande parte de suas terras é árida. Sua independência se deu em 1966, menos de 50 anos atrás. No passado foi um protetorado britânico (parece que onde esses ingleses malvados colocaram a mão as coisas andam direito) e desde sua independência não passou por nenhum tipo de instabilidade democrática, ou seja, nenhum golpe de estado ou revolução. A constituição do país data de 1966, e é a mesma até hoje.

gaborone-03-ciudad-verdeVista da cidade de Gaborone, em Botswana.

O Brasil possui um PIB per capita de US$ 11.900,00 (2011; em 1999 era de US$ 6.150,00), IDH de 0,744 e coeficiente de Gini de 51,9. Botswana possui um PIB per capita de US$ 16.200,00 (2011; em 1999 era de US$ 3.900,00), IDH de 0,683 e coeficiente de Gini de 63,0. E quanto ao índice de liberdade econômica? A nação africana ocupa uma honrosa 36a  posição, enquanto o Brasil amarga o 118o lugar – horroroso, em vez de honroso. Já sobre a liberdade de imprensa, Botswana tem um índice melhor até do que Estados Unidos e Itália, na ponta de cima da tabela, enquanto o Brasil faz companhia a países com ditaduras e governos autoritários, no extremo inferior.

O Brasil teve um surto de lucidez econômica nos governos Itamar e FHC, optando na época pela ortodoxia na condução da economia, o que nos levou à estabilidade e ao crescimento por diversos anos. Não preciso dizer que toda essa herança foi jogada no lixo pelos governos petistas, que levaram o país de volta à inflação, ao endividamento e à falta de confiança internacional. Botswana, por outro lado, tem mantido uma das mais altas taxas de crescimento econômico do mundo, com média acima de 9% ao ano, graças a uma política fiscal prudente e a um ótimo uso dos recursos naturais do país, rico em diamantes. Os sucessivos governos desde a independência jamais abandonaram as práticas de responsabilidade fiscal e o bom relacionamento com parceiros internacionais. Além disso, o ambiente para quem quer fazer negócios é excelente, com impostos baixos e incentivos reais e concretos ao empreendedorismo.

Resumindo, dentre esses dois países, aquele que optou pela ortodoxia econômica e pelos princípios conservadores está crescendo e tirando sua população da miséria, sem o emprego de programas de esmola pública. O outro, que optou pela heterodoxia (sem falar na pilantragem) econômica e pelos princípios socialistas, está estagnado, endividado e em meio a uma crise hídrica e energética, que só não será pior justamente pelo fato da economia estar parando. Os petistas alegam que trouxeram a justiça social ao Brasil, e que livraram o país de séculos de exploração; na verdade eles encheram os bolsos próprios e do partido e quebraram o país. A pequena Botswana permaneceu imune aos apelos revolucionários marxistas, mesmo incrustada numa região dita explorada, e vem gerando riqueza num ritmo muito forte, mostrando que não há herança histórica que resista a bons princípios de governança.

O tempo em que podíamos comparar o Brasil à Inglaterra ou à Rússia já ficou para trás. O que nos resta agora é tentar alcançar Botswana, torcendo para não virarmos uma Venezuela antes…

 

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor do livro “Mentiram (e muito) para mim”.

7 comentários sobre “Brasil x Botswana

  1. muito boa essa comparação Flávio, serve como um bom tapa na cara de qualquer esquerdista (petista) em qualquer discussão.

  2. Excelente artigo, me faz ter ainda mais vergonha de ser brasileiro e aumenta a repulsa pela esquerda revolucionária marxista comunista/socialista da maioria dos partidos políticos brasileiros. Infelizmente não vejo uma saída verdadeira para esse país, a não ser o aeroporto internacional.

  3. Flávio, realmente é triste a constatação dos fatos. Estamos em curso de naufrágio total. Parabéns pelo excelente conteúdo do texto. AbC

  4. Na verdade, o Brasil já perde para Botswana há muito tempo, o resto é preconceito. Botswana é uma monarquia constitucionalista disfarçada de república, fundada por um príncipe real forçado a abdicar pelos ingleses (que se arrependeram amargamente, e deram a ele um título de Sir como consolação. Chamava-se Seretse Khama e era casado com Ruth Khama, inglesa e branca (daí o escândalo racial). Desde 2008, o presidente é o filho dele, Ian Khama, o tampão, Festus Mogae, era do mesmo partido.
    Os Motswanas são trabalhadores, esforçados, poupam muito, respeitam os ancestrais e os mais velhos. Já nós… Tive o privilégio de chefiar funcionários motswanas, e eram os melhores.
    Outras duas coisas que ajudaram Botswana: o problema étnico é pequeno (a única minoria são os bushman ou san, nômades) e eles adotaram não só as instituições inglesas como a seriedade britânica (e arriscaria dizer que hoje são mais sérios). E não expulsaram nem brancos nem asiáticos.
    Qual o segredo? Como monarquista constitucional, eu diria: Seretse Khama sabia o que era noblesse oblige. E o filho herdou.

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