Desmentidos pelo Tempo

Artigo publicado no Correio Popular de Campinas, seção Opinião, edição de 28 de janeiro de 2015.

Muitas pessoas sofrem com um hábito difícil de se vencer, a procrastinação. Quem deixa para amanhã as obrigações de hoje está se apossando de um tempo que não lhe pertence, por assim dizer. A partir do momento em que assumimos responsabilidades em nossas micro-comunidades – a família, o lugar onde trabalhamos, a igreja que frequentamos, a instituição onde nos dispomos a contribuir – estamos doando parte de nosso tempo para cada uma das pessoas que conosco se relacionam, sempre em busca de um resultado que seja benéfico a todos os envolvidos.

A procrastinação também costuma ser muito comum na esfera governamental, tanto individualmente como numa forma mais coletiva, onde o chefe do executivo encabeça as responsabilidades, não podendo culpar ninguém abaixo de si por faltas ou falhas, já que a premissa de se presidir qualquer empreendimento é justamente ter a capacidade de gerenciar equipes e garantir que seus esforços estejam dentro das metas.

Os procrastinadores conseguem se dar bem por um tempo, enquanto for possível ludibriar seu “supervisor” imediato. Refiro-me aqui tanto ao supervisor no trabalho, que pode ser um gerente, diretor ou presidente, como ao supervisor na família, como um cônjuge que cobra do outro algo que havia sido prometido ou um pai que cobra o filho de sua lição de casa; mas também ao supervisor maior de todos os políticos, que é o pBroken-hourglassovo. Ora, a procrastinação só pode acontecer dentro de um governo se for possível ludibriar e enganar o povo por algum tempo. E depois desse tempo há apenas duas possibilidades de acontecimento:

  1. O procrastinador resolve se mexer: faz suas “horas-extras”, deixa de dormir, corre o quanto for preciso, e dá um jeito de entregar o prometido; ou
  2. O procrastinador é desmascarado.

Estamos diante da segunda situação no tocante ao governo federal brasileiro. Num curto espaço de tempo, de pouco mais de uma década, conseguiram deixar de cumprir quase todas as responsabilidades que se espera de um governo minimamente competente. Os comportamentos irresponsáveis de Lula e de Dilma nos trouxeram à situação calamitosa de hoje: dívida pública galopante, balança comercial deficitária, Petrobrás em descrédito, escândalos de corrupção sem precedentes, achatamento da classe média, aumento da carga tributária, crise energética, descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal, fuga em massa de investimentos externos, inflação alta e camuflada por congelamentos artificiais de alguns preços, aumento acentuado da máquina estatal, falta de investimentos em infraestrutura etc., e a lista poderia continuar.

Enquanto a situação de seu entorno é favorável, o procrastinador consegue ganhar tempo; mas quando as coisas pioram para todo mundo, seu relaxo e sua falta de responsabilidade saltam aos olhos. Os governos petistas aproveitaram-se de um momento único na história mundial, de crescimento econômico acentuado, e de um país que lhes foi entregue com boa parte das contas em dia, pronto para qualquer governo que estivesse disposto a fazer um trabalho apenas mediano – não era preciso o maior estadista da história para continuar o trabalho anterior, mas apenas um estadista. Quando os brasileiros optaram por um político inescrupuloso como Lula, e depois por uma incompetente desconhecida como Dilma, abriram mão de ter alguém qualificado para lidar com as necessidades que tínhamos.

O tempo, grande vilão dos procrastinadores, está agora cobrando seu preço. O país ainda pode piorar muito e, a julgar pelos feitos do primeiro governo de Dilma Rousseff, essa possibilidade está entre as mais prováveis. As reformas necessárias para levar o Brasil de volta à normalidade são completamente incompatíveis com o tipo de governo que o PT consegue fazer. Esperar desse partido algo tão diferente é como esperar colher limões de mangueiras, é algo que não vai acontecer.

O povo brasileiro tem sido o pior supervisor possível. Deixou de demitir quando era preciso, e agora não sabe o que fazer. Mais quatro anos dessa administração pautada pela incompetência trarão resultados cada vez piores para o país. Resta saber se até lá não estaremos completamente mesmerizados por esse faz-de-conta mentiroso, ou se restará algum sangue correndo em nossas veias para quebrarmos o ciclo vicioso que está afundando o Brasil.

 

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor do livro “Mentiram (e muito) para mim”.

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