Cale-se!

cale-seArtigo publicado no Correio Popular de Campinas, seção Opinião, edição de 7 de agosto de 2014.

O mercado financeiro já percebeu há tempos que a reeleição de Dilma Rousseff representa um grande risco para o futuro da economia brasileira. Cada pesquisa eleitoral que é publicada causa reflexos imediatos nos índices da Bovespa e na cotação do dólar, mostrando que o dinheiro sabe onde deve ficar e quando deve sair: o Brasil da era Dilma é um país de princípios econômicos heterodoxos, duvidosos e fracassados. A falência pública se aproxima a cada dia, e com ela um cenário de estagnação, inflação alta, desemprego e desvalorização da moeda. Estamos diante de um retrocesso tremendo em termos de saúde econômica – eu já trabalhava como assalariado na época da inflação galopante anterior ao plano Real, e sei o tipo de caos que nos espera caso voltemos a índices inflacionários daquela magnitude. Aliás, o leitor que tem as mesmas memórias que eu provavelmente concordará que a palavra caos não é um exagero nesta situação.

Mas voltemos ao mercado. Todo brasileiro que aplica suas economias no mercado financeiro tem o direito de receber informações precisas e fáticas sobre o cesto onde colocou seus ovos. Um princípio básico para alguém assumir um risco é justamente saber da magnitude e natureza desse risco. E foi exatamente isso que fez o time de análise de mercado do Santander, ao emitir carta endereçada a clientes investidores, onde diz que:

“Se a presidente se estabilizar ou voltar a subir nas pesquisas, um cenário de reversão pode surgir. O câmbio voltaria a se desvalorizar, os juros longos retomariam a alta e o índice da Bovespa cairia, revertendo parte das altas recentes. Esse último cenário estaria mais de acordo com a deterioração de nossos fundamentos macroeconômicos.”

Por conta desta carta o presidente do PT, Rui Falcão, sempre avesso à liberdade de expressão, iniciou um forte esquema de pressão para que o banco Santander se retratasse publicamente e demitisse os responsáveis pelo texto, que preferiu classificar como peça de “terrorismo eleitoral”. Esta pressão, por si só, seria algo desprezível e preocupante em uma democracia; o fato do Santander ter realmente se retratado e afirmado publicamente que reitera sua convicção que a economia brasileira seguirá sua bem-sucedida trajetória de desenvolvimento é prova cabal de que não estamos providos da liberdade de expressão no Brasil, mas sim que vivemos sob uma censura tácita porém ferrenha, que age rapidamente através de agentes de pressão do governo e do partido do governo, o PT.

Mas há algo ainda mais terrível nesta situação. Geralmente se diz que a liberdade de expressão está em risco quando pessoas não podem emitir suas opiniões livremente, ou seja, opiniões que sejam contra o governo são proibidas e punidas. Neste caso vemos um “aprimoramento” da censura: o texto do banco aos seus clientes é uma análise baseada em fatos, um prognóstico profissional feito por analistas de mercado, semelhante às analises da grande maioria dos especialistas financeiros. Estamos aqui diante da censura dos fatos, e não apenas das opiniões – a censura petista já é muito mais restritiva do que a censura oficial dos governos militares pós-AI5. Estamos diante de uma situação em que esta própria coluna de opinião se encontra em perigo, e em que a publicação de um texto como este, que não fala bem do governo, passa a ser um ato de liberdade a ser comemorado e pelo qual vale a pena lutar.

O grande estadista norte-americano, Thomas Jefferson, defensor incansável da liberdade de expressão, disse que “se eu tivesse que decidir se devemos ter um governo sem jornais ou jornais sem governo, eu não hesitaria em preferir o último”. Ele tinha convicção de que um sistema de governo que não permitisse ser esquadrinhado e avaliado pública e livremente era um sistema de governo desprovido de liberdade. Para cair nas mãos de um tirano basta que a democracia seja mutilada, perdendo seu poder moderador, a imprensa livre. Episódios como esse deixam um odor muito ruim no ar, a fedentina da ditadura que nos ronda como um predador à espreita, vindo desta vez pela esquerda. A continuar assim, é certo que em breve ouviremos, cada um de nós, um estrondoso e tirânico “Cale-se!”.

 

Flavio Quintela é bacharel em Engenharia Elétrica, escritor, tradutor de obras sobre política, filosofia e história, e membro do IFE Campinas. É o autor do livro “Mentiram (e muito) para mim”.

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