A Copa das Copas

copa 2014-DILMAFaltam 15 dias para a Copa do mundo. A lembrança chega até mim pelo Facebook, já que aqui nos EUA a gente não vê notícia nenhuma sobre o torneio.

Nunca deixei de acompanhar uma Copa. A primeira lembrança que tenho é da copa de 1982, e é uma memória bem vívida do jogo Brasil x Itália. Eu tinha 6 anos de idade e estava em Santa Rosa de Viterbo, interiorzão de São Paulo, na casa de meus tios. Quando o Falcão empatou o jogo pela segunda vez nós saímos correndo para a rua de paralelepípedos, nós e todos os vizinhos, na maior alegria. Todo mundo sabe que essa alegria não durou nem 10 minutos, pois o Paolo Rossi estava inspirado naquela tarde e marcou três num jogo só. Foi o nosso “arrivederci”…

Quatro anos depois a família se reuniu em nossa casa, em São Bernardo do Campo. Alguém trouxe um daqueles telões engraçados, que você conectava na TV de tubo e tentava de alguma forma conseguir uma imagem decente através de uma lente gigantesca de acrílico. Seguindo a tendência da imagem, que ficou ruim o tempo todo, o jogo terminou triste, e todos os “especialistas” presentes afirmavam categoricamente que foi um absurdo deixarem o Zico cobrar aquele pênalti sem estar aquecido. Aliás, história que ficaria na boca do povo por mais alguns dias, até que o fiasco fosse finalmente esquecido.

Veio mais uma Copa, em 1990. Essa foi difícil de ver – meu pai havia sido transferido por um tempo para os Estados Unidos, e estávamos em uma cidade do interior de Illinois durante o torneio. Conseguimos ver somente as finais, pois a TV americana simplesmente não transmitia os jogos. O fato é que não perdemos muita coisa… O senhor Caniggia carimbou nossa passagem de volta para o Brasil.

Finalmente veio 1994. Eu tinha 18 anos de idade, e lembro que a final aconteceu no meio de um retiro espiritual onde eu estava com minha família. Não lembro muita coisa do retiro, mas lembro claramente que estávamos todos, mais de 100 pessoas, no salão principal, acompanhando a cobrança de pênaltis e o presentaço de Roberto Baggio para nós. Ufa! Depois de tantos anos de vida finalmente pude gritar “Brasil Campeão!”

Mais quatro anos se passaram e chegou 1998. A primeira e única Copa da época de faculdade. Foi muito legal ver os jogos com os grandes amigos que até hoje fazem parte da minha vida, mas não tão legal ver o chocolate que a França de Zidane deu no Brasil. E dá-lhe teoria da conspiração! Tinha pelo menos umas três que tentavam explicar o que aconteceu com o Ronaldo e a consequente derrota. Acho que até forças alienígenas foram cogitadas em uma delas…

E lá vamos nós! 2002 foi uma Copa que eu fiquei ansioso para ver. Sempre gostei do Felipão, e tinha muita esperança que ele faria um bom trabalho. Lembro que vi a final na chácara de meus pais, em São Pedro, ao lado do meu querido pai. Aliás, foi a última final de Copa que vimos juntos, antes do acidente que lhe tirou a vida. Foi um tremendo de um jogo, e essa eu comemorei muito. Merecida!

A Copa de 2006 foi tão ridícula para o Brasil que não dá vontade nem de comentar. A eliminação logo nas quartas de final foi de doer. E nesse caso não tinha teoria conspiratória que conseguisse explicar. Enfim, dessa vez foi “Au revoir!”

E chegamos a 2010. Mais uma Copa digna de ser esquecida, num ano que marcou o início do pior governo que o Brasil já teve. Aliás, 2010 foi um dos piores anos da minha vida. A verdadeira urucubaca-mor. E logo nas quartas de final ouviríamos bem alto, vindo dos Holandeses, “Afscheid!”

E estamos em 2014, próximos do início daquela que é chamada pela monstra que ocupa a presidência de “A Copa das Copas”. E pela primeira vez na história deste país ela pode estar certa. Esta pode ser “A Copa das Copas”, porque de todas as Copas esta é a que tem a maior possibilidade de influenciar o destino de nosso país.

A Copa sempre acontece em Junho-Julho, e as eleições sempre são em Outubro. Desde 1994 elas coincidem com o ano em que é disputada a Copa do Mundo. Muita gente fala que o resultado da Copa influencia o resultado das eleições, mas isso não é verdade. O período entre os dois eventos, de 3 meses, é suficiente para dissipar qualquer empolgação ou desânimo que possa ter sido gerado pelo torneio. Basta olhar para 2002 e 2006: Lula conseguiu se eleger depois de duas Copas totalmente diferentes, e na segunda ele ainda enfrentava as dificuldades com o estouro do Mensalão. A Copa não nos ajudou em nada… Quem nos dera o povo tivesse ficado tão chateado a ponto de enfim enxergar que estava sendo governado por criminosos.

Mas por que a Copa deste ano pode ser diferente? Não são os mesmos 3 meses entre eventos? Não é a mesma situação das últimas 5 Copas? Não são os mesmos partidos na disputa? Para mim, e deixo claro que essa é somente minha opinião, não. Nada é igual. Tudo é diferente nesta Copa. É uma Copa no Brasil, e não fora dele. É uma Copa trazida pelo PT, pelo ex-presidente Lula, e adotada pela atual mandatária. É uma Copa que acontece em meio a protestos, em meio a uma quantidade inédita de críticas ao governo petista, na internet, na mídia impressa e em diversas obras publicadas nos últimos 15 meses, que têm batido recordes de venda a cada semana. É uma Copa em que se gastou o suficiente para 3 Copas, e cujo resultado não é satisfatório nem para meia. É uma Copa desunida, uma que o povo brasileiro não está querendo para si.

Por isso, eu vejo duas possibilidades para essa Copa:

  1. Tudo acontece da melhor forma possível, o povo esquece de todas as lambanças do governo, nenhum protesto atrapalha os jogos, os aeroportos dão conta do movimento, o caos passa longe das cidades-sede, a seleção brasileira joga bem e o povo sai feliz. Será a Copa das Copas para o PT.
  2. A lei de Murphy não dá tréguas e as coisas não acontecem como esperado. As cidades-sede sofrem com a falta de infraestrutura, os jogos são afetados por protestos, muitos lugares experimentam o caos urbano, turistas são assaltados, os sistemas de transporte pedem água, os aeroportos ficam entupidos, e a seleção brasileira joga o que tem jogado, o suficiente para passar das quartas, mas não para ser campeã. Com toda essa conta no bolso, mais a tendência atual de queda de popularidade, e há uma chance de que Dilma Rousseff não se reeleja. Seria a Copa das Copas para o Brasil.

Prefiro nunca mais ver nossa seleção ganhar uma Copa do Mundo a ver o PT ganhando mais uma eleição presidencial. Não escondo de ninguém: não torcerei nesta Copa, não quero que tudo dê certo e não quero que o mundo olhe para o Brasil e diga “nossa, que Copa maravilhosa eles organizaram”. Quero que essa bandida receba o pior legado possível desse evento, e que seja um ônus tão grande a ponto de lhe tirar a reeleição. Somente assim poderei chamar essa Copa de “A Copa das Copas”, e quem sabe, daqui a alguns anos, colocar em minha lista: 2014 foi a melhor Copa de todas.

 

Flavio Quintela é autor do livro “Mentiram (e muito) para mim”

Imagem: blog do Planalto

 

6 comentários sobre “A Copa das Copas

  1. ‘A lei de Murphy não dá tréguas e as coisas não acontecem como esperado. As cidades-sede sofrem com a falta de infraestrutura, os jogos são afetados por protestos, muitos lugares experimentam o caos urbano, turistas são assaltados, os sistemas de transporte pedem água, os aeroportos ficam entupidos, e a seleção brasileira joga’… mal e vai para casa mais cedo, quer dizer, fica em casa. …’Com toda essa conta no bolso, mais a tendência atual de queda de popularidade… Dilma Rousseff’… PERDE RUDE! SERÁ …’a Copa das Copas para o Brasil’.

  2. Aqui na California tem muito americano mais entusiasmado com a copa do que eu. Bateu aquela sensação de que estou cansado da descarga emocional e da cretinice nacional que aparece toda santa vez que chega a competição. Com o Brasil mergulhado no caos, e só uma parte do país realmente consciente disso, sinto-me cada dia mais distante: da copa e do Brasil.

    • Pois é, estiva visitando o Hornet, quando um mexicano todo entusiasmado veio conversar comigo sobre a copa – já tinha lhe dito que era brasileiro. Quando falei que morava perto do Maracanã, mas iria passar longe de copa do mundo, a cara dele foi de perplexidade e espanto…

  3. Olá, Flávio
    Humildemente, penso que nossas seleções nunca ficaram com a imagem de algum presidente ou regime nelas impregnado. Nem a de 1970, preparada fisicamente pelos militares (excelentemente).
    Por outro lado, acho uma certa violência com as gerações vindouras a propagação de alguma frieza com relação ao futebol brasileiro, em primeiro lugar porque a seleção transcende o contexto esportivo e em segundo porque em nosso tempo ninguém fez isso com a gente, em terceiro porque, onde somos bem recebidos, somos por causa do futebol brasileiro.
    O contexto não é favorável para que a situação leve os louros da vitória (dentro de campo, porque fora já fomos derrotados). A seleção será campeã (até por causa dos arranjos que a gente não entende , vide 1998), e a presidente não será reeleita.

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