Empreendedores mortos no ninho

Já faz quase um mês que não escrevo neste blog – deixo registrado aqui o meu pedido de desculpas a todos os meus leitores assíduos. O fato é que passei por uma mudança de vida bastante complicada, que exigiu dedicação total de mim, a ponto de não conseguir sentar e concatenar ideias para novos artigos.

Enfim, aqui estou novamente, escrevendo diretamente da Flórida, nos Estados Unidos. Sim, esta foi a mudança complicada: sair do Brasil com esposa, dois gatos e dois cachorros para assumir um projeto ousado de tradução da grande obra de Otto Maria Carpeaux para a língua inglesa. Quem já passou por uma mudança deste porte vai entender o que estou falando: parece que a coisa nunca vai acabar, as malas nunca são suficientes, você mal tem tempo para se despedir das pessoas, e ainda tem a burocracia particular de cada serviço que você tem que cancelar, e que somam centenas de minutos preciosos gastos ao telefone com atendentes despreparados.

Mas isso é apenas uma justificativa para minha ausência. O que eu quero mesmo abordar neste artigo é algo que ficou muito claro depois de dez dias morando aqui: o Brasil mata seus empreendedores no ninho. Vou falar sobre duas situações que exemplificam muito bem o que é um país com ambiente favorável aos negócios, e como no Brasil consegue-se fazer sempre o contrário do que seria recomendado.

Fomentando negócios

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Assim que eu soube que viria aos EUA para o projeto Carpeaux tive que buscar meios de sustento para minha família, e o mais lógico foi dar continuidade ao que eu já fazia no Brasil. Por isso surgiu a ideia de abrir uma filial da empresa em que presto consultoria, para iniciar a comercialização de seus produtos em território americano. Bastou uma busca no Google e eu já tinha o telefone de uma agência de fomento de negócios para a Flórida. Bastou uma ligação para que eu recebesse em meu e-mail uma série de documentos onde poderia traçar um plano básico de negócios, que seria analisado por essa agência e oferecido aos condados da Flórida que eu tivesse interesse.

Uma semana depois de mandar esses documentos recebi em meu e-mail uma apresentação de 80 páginas contendo os dados demográficos e econômicos de todos os condados pelos quais me interessei, juntamente com ofertas de redução de impostos e oportunidades imobiliárias para a instalação de meu negócio para cada condado. As informações foram minuciosas, e cada condado deixou uma pessoa responsável para me atender pessoalmente, caso eu desejasse. Aos que não conhecem a organização política americana, os condados são divisões de um estado, e abrangem alguns municípios dentro de seu território.

Depois de analisar o documento, escolhi dois condados para conhecer mais a fundo e marquei uma primeira reunião pessoal. Fui atendido por uma pessoa muito bem preparada, que me ofereceu toda a ajuda para a abertura da empresa, desde a indicação de profissionais de contabilidade até ajuda na contratação de empregados, quando for necessário. E para que tudo seja mais fácil, a abertura da empresa leva poucos dias e pode ser feita pela internet. O código equivalente ao nosso CNPJ sai no mesmo dia, e somente o lucro da operação é taxado.

Compare essa situação ao caso brasileiro e você chegará à conclusão: Brasil, você está fazendo isso errado! Entre preencher os papeis de abertura de uma empresa, aguardar registros na Receita e na Junta Comercial, e finalmente poder iniciar atividades legalmente vão no mínimo dois meses e meio, no melhor caso. E você ainda tem que lidar com a coisa mais esdrúxula que já inventaram no Brasil, que é o sistema de pagamento de impostos por “lucro presumido”. Ou seja, além de ter que vencer diversas barreiras burocráticas para iniciar seu negócio, você tem que trabalhar pagando impostos desde o primeiro dia, quando provavelmente ainda não está lucrando nada.

Oportunidade para todos

Num mesmo dia recebi em casa três prestadores de serviço. Como eu gosto de conversar com as pessoas, puxei papo com os três:

  • O cara que instalou a proteção de respingos na cozinha era venezuelano. Saiu de lá depois que Chávez começou a desmontar a democracia e veio estudar aqui. Hoje tem uma empresa que faz reformas e emprega cinco pessoas, inclusive o irmão, que veio depois;
  • O cara que instalou a TV a cabo era Sudanês. Saiu de lá por causa da guerra civil e ficou um ano aqui sem poder trabalhar legalmente. Hoje possui sua própria prestadora de serviços e trabalha como terceirizado da empresa de TV a cabo e internet. Dirige sua própria Dodge RAM gigantesca e cheia de ferramentas, e me disse que vive tranquilo com a esposa e filhos;
  • O cara que veio testar a água era do Irã. Saiu de lá porque não queria viver num país onde a religião está acima da democracia. Trabalha com uma empresa que vende filtros de água (e que pertence a outro venezuelano) e disse que está feliz em poder viver num ambiente democrático, sem ter que se curvar a um aiatolá.

Nenhum dos três é empregado formal de ninguém, nenhum deles tem direitos garantidos pela CLT, nenhum deles é filiado a sindicato, e ainda assim os três estão numa situação muito melhor que qualquer empregado brasileiro “protegido” por nossas leis trabalhistas jurássicas. A livre negociação entre empresários, empregados e prestadores de serviço é extremamente saudável para a economia e para as pessoas que querem apenas ganhar a vida de forma honesta.

Fica a pergunta: quando é que você, brasileiro, recebeu em sua casa três imigrantes de lugares tão distintos, todos felizes por terem encontrado um lugar melhor para viver e donos de seus próprios meios de sustento?

O Brasil nunca foi um lugar dos mais amigáveis para negócios, mas na década petista a coisa só tem piorado. Nossa posição nos rankings de liberdade econômica e de facilidade de abertura de empresas tem caído ano a ano, e sempre estamos em companhia dos países mais fechados do planeta. Mesmo assim nosso povo é empreendedor e muita gente insiste em arriscar tudo na abertura de negócios. Que potência poderíamos ser se essas pessoas tivessem, no mínimo, uma ajuda do governo brasileiro: a de não atrapalhar.

 

Flavio Quintela é autor do livro “Mentiram (e muito) para mim”

8 comentários sobre “Empreendedores mortos no ninho

  1. Aqui essa situação é retroalimentada. Escrevi há pouco tempo atrás referente ao prejuízo que é para os trabalhadores a mera existência de sindicatos, e recebi muitas críticas. Em parte porque aqui não existem muitos exemplos como esse. E algo que não é percebido, é tido como impossível pela massa. Não conseguem enxergar esse círculo vicioso. E aí temos mais defesas dos sindicatos, menos liberdades ao trabalhador e o ciclo se fecha…

    Sucesso no novo desafio!

  2. Cara, confesso que chorei agora, sério! Saiu lágrima dos 3 buracos. É o sentimentalismo de um empreendedor que já fracassou pela… já perdi a conta.

    Aqui nessa estrebaria brazuca não dá mais. Nada mais funciona aqui. Você anda, anda, anda e parece que não chega a lugar nenhum. Onde você vá é o mesmo cenário: as coisas se desmanchando, as pessoas em uma espécie de ‘estado vegetativo’, obras que nunca terminam… enfim, o caos.

    Eu sou da área que integra TI com hardwares. Já saíram projetos muitos bons, mas fracassamos. Desisti. Só tomamos na cabeça, principalmente com o governo e seus ‘cupinchas’ chamados fiscais, além de grandes corporativismos protegidos pelo governo (vulgo monopólios), que compram e não pagam, e estão pouco se importando com a ‘coisa’ chamada justiça.

    Tínhamos 17 empregados quando começamos a 14 anos atrás. Hoje? É só eu e meus dois sócios: o sócio da minha empresa e o ‘sócio em Brasília’, sendo que este último é o que mais usufrui da empresa, sugando até a última gota do que se pode chamar de ‘lucro’.

    Enfim, chegamos a era das trevas aqui no brazuca. Tudo está se desmanchando a olhos vistos. Até os ‘estádios padrão fifa’ já começaram a se desmanchar antes mesmo dos jogos da copa.

    Por isso chorei. Chorei por aquele que era e nunca foi: o Brasil.

  3. Diga Flávio! Suas reflexões são muito precisas!
    Diga a verdade para nós brasileiros que somos encobridos com mentiras e roubos o tempo todo! A tua sinceridade é maravilhosa, teus textos nos são tão familiares, pois vc escreve e expressa muito do gostaríamos de dizer, mas nem sempre temos a habilidade e tranquilidade e para fazê-lo. O governo do Brasil está levando o povo honesto à depressão de tanta exploração e mau/l uso do dinheiro do contribuinte. Vamos rezar para essa nação melhorar!
    Obrigada pelo relato, que benção vc ter a sua família aí nos EUA podendo exercer teu talento e o melhor, prosperar e poder ter e dar uma vida digna aos seus sem o governo atrapalhar.
    Felicidades! Que Deus o abençoe, e sucesso, guerreiro!

  4. Parabéns pelo post. Vim parar no teu blog por conta da história do carteiro Gil que li no Reaçonaria.

    Quanto ao empreendedorismo por aqui, tenho essa impressão também, mas os exemplos práticos são matadores. Vc colocar exemplos do que vive aí é fortíssimo para mostrar aos brasileiros o que realmente acontece por aqui. E o pior é que como sempre vivemos aqui, nessas condições, fica difícil visualizar outra realidade.

    Eu mesmo estou desempregado há algum tempo e poderia iniciar um negócio. Mas que vontade tenho de fazer isso para dividir minhas economias com o governo? Abrir uma empresa é um parto, contratar um risco maior que saltar de paraquedas, vender é difícil, receber mais ainda. E se tudo der errado e vc tiver que fechar a empresa complica mais ainda…

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